“TRÊS PONTOS SOBRE A VIDA”
(por André Gimenes o Tato)
CAPITULO I
É quase de manhã e o relógio reluta em tocar por medo de ser estraçalhado contra a parede do quarto do Sr. R.
Mas o tempo é uma panela de pressão, pronta a estourar a cada pedaço de tempo que passa. O tempo devora o amanha insaciavelmente dando vida ao que quer destruir. O tempo, cruel inimigo dos ansiosos contemporâneos, dilata a vida pra que nela se perceba a morte.
O relógio tenta deter suas engrenagens como alguém que tenta suicídio prendendo a respiração. O medo de seu fim próximo o coloca em um jogo aonde ter a posse e o controle de sua vida é poder acabar com ela por si próprio. Diante te tal falsa escolha, a natureza imposta ao relógio o condena a um fracasso inevitável: aos prantos, um assovio, um lamento clamando por sua vida, e seu ofício de contá-la.
Sr. R. estala os olhos e as veias e artérias que irrigam sua retina, e solta um rugido semelhante a de um urso encomodado em seu período de hibernação:
“Grrrrroooooaaaaaarrrrr”
(...)
As carcaças que se acumulam sobre o chão do quarto do Sr. R. ganham um novo visinho que ainda agoniza enquanto é devorado por seu amor, seu oficio, sua razão de estar e ser, o abutre que arranha sua face lisa e jovial. O tempo aquele que prolonga a vida para que nela se perceba a morte. Devora o relógio diante de seu inquisidor Sr. R. que saliva como o cão de Pavlov ao escutar a sirene.